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Uma amiga me pergunta porque fotografar. A piração advém da leitura do Flusser. Ele expõe a idéia dele da diferença entre funcionário e fotógrafo. Ela enlouquece. Para que ser funcionária do aparelho? Já lembro do querido professor Wladimir me dizendo que “o pior xingamento para fotógrafo é funcionário”, ele completa, “melhor ainda quando o cara não entende que é xingamento”.
Imediatamente eu replico, não por nada além de reflexo, ou seja, sem reflexão: “eu não fotografo para ser funcionário ou fotógrafo, fotografo porque isso media relações com outras pessoas”. E agora, passados alguns dias, tendo ouvido as mesmas palavras dela novamente, nada diferente me ocorre para responder àquilo. Pouco interessa como é o relacionamento com a câmara, interessa que a existência dele propicie outros relacionamentos, esses com pessoas, das mais variadas maneiras e intensidades.
Hoje, uma foto em especial me fez pensar nessa tal mediação.

Difícil explicar porque, mas arrisco: das três pêras do quadro, uma está partida.
Terça 15h – Mesa Bits e Volts na Unha
Quarta 17h – Como fazer Boas Fotos com uma Camara Tosca
Sexta 15h – Demonstração Refotografia com Scanner

Uma fotinho da bancada onde me instalei no CP junto ao pessoal do Metareciclagem. Um evento diferente onde as pessoas trazem seus aparelhos para conviverem juntos. O Vilém com certeza ia se divertir bastante criticando tudo isso. Eu queria muito saber se sou o único que trouxe câmara de filme para cá.
Tem um glossário logo ali, cá em cima, nos tabs desse blog.
E sempre que eu entro ali para adicionar uma palavra, ou mesmo ler o que já escrevi sobre alguma outra, eu penso no glossário para uma futura filosofia da fotografia. Esse é o glossário que está nas edições da Filosofia da Caixa Preta de Vilém Flusser.
O glossário de Flusser tem verbetes sensacionais, curtos e pungentes. Tais como o primeiro de todos:
“Aparelho – brinquedo que simula um tipo de pensamento.” (sic)
E é só isso mesmo, até porque mais não é necessário. Outro:
“Informação – situação pouco-provável.” (sic)
E por ai vai. Curioso é ver que o esqueleto do livro está no glossário, e ao contrário do que se imaginaria, para entender completamente o glossário é necessário ler todo o livro.
Em Flusser temos o seguinte:
“Capítulo 6 – A Distribuição da Fotografia
As características que distinguem a fotografia das demais imagens técnicas se revelam ao considerarmos como são distribuídas. As fotografias são superfícies imóveis e mudas que esperam, pacientemente, serem distribuídas pelo processo de multiplicação ao infinito. São folhas. Podem passar de mão em mão, não precisam de aparelhos técnicos para serem distribuídas. Podem ser guardadas em gavetas, não exigem memórias sofisticadas para seu armazenamento.”
E por isso hoje começa uma outra oficina. Vai ser no Pompéia, sobre pequenos livros em pequenas tiragens.
No quinto capítulo, de seu livro mais famoso entre fotógrafos, Vilém Flusser escreve o seguinte:
“Resumindo: a intenção programada no aparelho é a de realizar o seu programa, ou seja, programar os homens para que lhe sirvam de feed-back para o seu contínuo aperfeiçoamento.”
O trecho culmina com a seguinte frase: “A fotografia é, pois, mensagem que articula ambas as intenções codificadoras. Enquanto não existir crítica fotográfica que revele essa ambigüidade do código fotográfico, a intenção do aparelho prevalecerá sobre a intenção humana.”
Tenho lido e relido esse trecho. Me faz pensar naquele elogio deferido à câmara, que irrita o operador: “Boa sua foto! Que câmara você usa?” O fato é que pouco sabemos separar o que é nossa intenção, o que é intenção já embutida na câmara, no computador, no scanner. Acho que deveria haver um esforço para separar os méritos de cada um.
Em Rio Branco conheci a Carmem. Quanta energia. Aprendi bastante. No avião, indo e vindo de uma cidade para outra, li Flusser. Ele questiona até onde vai a intenção do aparelho numa fotografia e a intenção do operador. Ele acredita que o aparelho fotográfico nos programa para esgotar o programa dele próprio. Assim, logo achamos que nosso aparelho é obsoleto, o que nos faz querer adquirir outro aparelho mais novo do aparelho indústria fotográfica. Será?
Já percebeu como as pessoas sempre estão indo pra algum lugar?
E a cidade é feita para os carros e não para as pessoas?
Nada que o Milton Santos já não tenha dito anteriormente, mas acho que isso é o pano de fundo dessa história. Pluracidades.
Já no plano da imagem, a padronagem que surge fala um pouco da coisas cíclicas e repetitivas, coisas que aparentemente não tem fim. E há uma separação entre o que se move e o que é estático, isso cria um desconforto, vejo ai um comentário sobre o aparelho, o programa, coisas que li no Flusser.
A elaboração se dá através do uso de um scanner ao invés de uma câmara comum. A imagem passa a ser adquirida em uma fração do espaço muito pequena, mas ao longo do tempo, ao contrário de uma câmara comum que fotografa uma fração de tempo ao longo do espaço. Uma constante no meu trabalho, ir em busca de alterações no cerne do processo de formação da imagem, subverter a ferramenta produzida pela indústria.
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