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Depois de duas semanas…

A exposição foi pouca (seguindo as dicas do Tarja a exposição deveria ser de 3 a 6 meses, mas eu tava muito curioso). O Sol pode ser visto ali no pequeno espaço que se vê da janela de cima, pontinho amarelos. Os pontinhos brancos pela área mais escura da imagem são sujeira mesmo.

Uns dias atrás falei do projeto Solargraphy de Tarja Trygg. Inspirado nas dicas que ele dá no site dele preparei uma câmara formato 5×7″ com um pedaço de papel P&B fibra dentro (Ilford Gallerie, G3, vencido). E a câmara está ai, imóvel, desde o dia daquele post (28/10/09).
O tempo virou aqui em Sampa, o Sol abriu e nos últimos dias o céu esteve assim, completamente azul. Isso foi ótimo para por em dia uns projetos fotográficos e deve estar causando uma velatura bacana no papel dentro da câmara.
Coloquei o diafragma em f/45 e colei um filtro polarizador por cima da lente para diminuir um pouco mais a intensidade de luz. Apontei a câmara para o poente. Tive o cuidado de fazer uma limpeza especial da janela logo a frente da câmara, que estava imunda.
Primeiro havia recebido do André, agora de Mariana, é o link que coloquei ao lado sob o nome: Richard Nicholson Darkrooms. O fotógrafo realizou um ensaio fotografando o interior de laboratório fotográficos de impressão na cidade de Londres. Vale a pena ler o texto, nostálgico, uma ode ao ampliador fotográfico, que o autor considera uma das obras-primas da indústria moderna.
O fato é que o ensaio, o texto, as fotos, os ambientes retratados me fizeram partir para uma série de idéias, nostálgicas ou não, que se combinaram com a dificuldade que passo agora para adquirir tiossulfato de amônia, matéria-prima do fixador fotográfico rápido (segundo Anchell, o único seguro para filmes contemporâneos, blá, blá, blá).
O texto de Benjamin, “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica”, iniciado em 1936, publicado em 1955, fala dos efeitos da fotografia, das gravações sonoras e do cinema na arte. Enfim, o texto fala de mudanças fortes, duras, permanentes. A Era Digital por sua vez trouxe inúmeras mudanças para nossa noção de arte, um texto como o de Benjamin provavelmente será escrito daqui uns anos, quando tudo parecer mais claro.
Richard Nicholson fotografou uma cena desse drama de mudanças. Se falássemos da Megera Domada e a fotografia fosse Kate, quem seria Petrúquio?
Os quartos-escuros das fotos, sua decoração e seu conteúdo falam de um ritual que ocorre dentro deles: homens e mulheres imaginam (visualizam segundo Adams) os efeitos de papéis e químicos, deixam que suas mãos dancem do caminho da luz, sentem o cheiro do ácido acético, ouvem música, procuram ver na luz rala. Não há como comparar o resultado de uma sessão de laboratório com uma sessão de inkjet. Uma pena que a Era Digital vai impor o inkjet até para muitos trabalhos que ficariam melhor numa cópia feita pela mão do artista com sais de prata.
É certo que vão surgir outros rituais (esses incluindo a inkjet ou o que vier) e esses serão os nossos rituais daqui para a frente. Uma pena que não serão no escuro.
“Toda obra de arte é, de alguma maneira, feita duas vezes. Pelo criador e pelo espectador, ou melhor, pela sociedade à qual pertence o espectador.” Pierre Bourdieu
“A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade.” Picasso
“Um sentir é do sentente, mas outro é do sentidor.” Guimarães Rosa
“Para viajar, basta existir.” Fernando Pessoa
“Quando alguém aponta para a Lua, os estupidos olham para o dedo.” Provérbio Tibetano
Recentemente fui fazer uma foto para uma revista que ainda não existe. A personagem é Isadora, ela é surda e adora dançar. Isso por si só assunto para uma vida.

Mas o fato é que uma das imagens resultantes desse ensaio suscitou inúmeras discussões dentro de mim. Cheguei ao local da foto e fiquei de papo com duas pessoas, uma delas a responsável naquele dia pelo espaço onde a foto seria feita (uma escola de dança). O atraso da fotografada foi providencial, o papo foi indo, lá pelas tantas falamos de vizinhos, ela apontou triste o toldo verde todo furado pelos cigarros jogados do prédio acima da escola.
Olhando o toldo comecei a refletir sobre a incompreensão entre as pessoas, o gesto de jogar uma bituca acessa pela janela de um prédio quando se sabe que o vizinho está logo abaixo, a história de busca de compreensão por parte de Isadora, imaginei a dança dos pontinhos brilhantes ao redor dela.
A foto nasceu naturalmente.
Mais tarde pensei que os furos eram pinholes e no momento da foto sobre mim eram projetadas inúmeras imagens das casas dos vizinhos de cima da escola de dança. Não parei para contar quantos pontos são. Talvez seja legal voltar lá num dia de eclipse do Sol e fotografar o chão de pedras onde deitei para fazer essa foto!
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