Para que fotografar?

Uma amiga me pergunta porque fotografar. A piração advém da leitura do Flusser. Ele expõe a idéia dele da diferença entre funcionário e fotógrafo. Ela enlouquece. Para que ser funcionária do aparelho? Já lembro do querido professor Wladimir me dizendo que “o pior xingamento para fotógrafo é funcionário”, ele completa, “melhor ainda quando o cara não entende que é xingamento”.

Imediatamente eu replico, não por nada além de reflexo, ou seja, sem reflexão: “eu não fotografo para ser funcionário ou fotógrafo, fotografo porque isso media relações com outras pessoas”. E agora, passados alguns dias, tendo ouvido as mesmas palavras dela novamente, nada diferente me ocorre para responder àquilo. Pouco interessa como é o relacionamento com a câmara, interessa que a existência dele propicie outros relacionamentos, esses com pessoas, das mais variadas maneiras e intensidades.

Hoje, uma foto em especial me fez pensar nessa tal mediação.

sergioedorival

Difícil explicar porque, mas arrisco: das três pêras do quadro, uma está partida.

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3 ideias sobre “Para que fotografar?

  1. =) Pri!!!

    Essa foto?
    Bom… deixa eu te contar uma coisa… não sei quem tem perguntou isso, mas depois de ler na Sontag que a Arbus se suicidou, vou cair fora de todo o sistema da caixa preta, fotografia é DO MAL, olha isso, ontem tava na biblioteca e baixou a Amelie, comecei a conversar… e no meio da discussão estavamos presos a questão
    – mas pera ai, você faz fotografia e não gosta de fotografar?
    – é.
    – como assim, é?
    – Bom é que assim: lembra na idade média, quando as igrejas dominavam a população, porque eram detentoras de “todo” o conhecimento do mundo, o que fica subeentendido, que seja o conhecimento academico, literal, aquelas tais palavras escritas… pois bem, creio que a fotografia tem feito com as pessoas o mesmo que as igrejas, só que sem uma mediação tão clara… olha só, somos todos analfabetos da imagem, ok até ai nenhuma novidade não é mesmo, mas a questão é que usam todas as imagens de forma tão deturpada, fazem RIOS DE DINHEIRO, com uma coisa que deveria ser apenas a minha expressão do mundo, um suvenir para as minhas próprias lembranças, e eu poderia entrar nesse caminho e te dar mais mil e uma razões pra nunca mais apertar a porra do botão mágico…

    mas depois de tudo isso continuei a ler o livro, e enfim cheguei na Arbus, que deixou o problema bem mais nitido para mim então: BINGO
    “Eu jamais escolheria um tema por aquilo que ele significasse para mim quando eu pensasse nele”, escreveu Arbus.
    A começar que só consigo escolher um tema, se ele tiver significado para mim, nem que seja um encantamento instantaneo, mas ele tem que ter significado, senão não me comunicou nada, não passou por mim e disse, olha pra mim eu existo, lembra de mim, me fotografa, ou qualquer outra doideira que me ocorra pensar quando estou diante de alguma cena que penso ser digna de registro mas exito, será que eu PRECISO fotografar isso, ou já estará de qualquer forma no meu arquivo de lembranças já que de alguma maneira me tocou, o que quero dizer é: o que me leva a TER QUE ETERNIZAR? Porque esse medo do esquecimento? Porque esse medo de acabar? Esses medos não são também os medos que alimentam o meu próprio medo de viver?
    AGORA SÓ PRA FICAR CLARO PORQUE NÃO!
    Não sabia, mas alguém já tinha colocado palavras no que eu sentia, só que nunca soube pontuar tão bem; pág 39 da sontag: “No velho romance do artista, aquele que tem a temoridade de passar uma temporada no inferno arrisca-se a não escapar dali com vida ou a regressar com danos físicos. Vanguardismo heroico da literatura francesa do fim do século XIX e inicio do século XX fornece-nos um panteão memoravel de artistas que não lograram sobreviver as suas viagens ao inferno. Ainda assim, existe uma enorme diferença entre a atividade do fotografo que é sempre uma expressão da VONTADE, e a atividade do escritor, que pode não ser. Temos o direito e podemos sentir-nos OBRIGADOS a desabafar a própria dor – a qual, em ultima analise, é propriedade NOSSA. A dor alheia, vamos a procura dela vonluntariamente.”
    e dai Arbus se mata… e então decido definitivamente vou escrever porque é só o que me resta fazer, fotografar vou deixar para aqueles que tiverem muita vontade, muita força de vontade, aqueles que além de irem ao inferno quiserem guardar recordações de lá, não preciso desse peso na minha alma, definitivamente não preciso me martirizar desse jeito, só quero amar e ser livre… ok duas utopias, mas é só o que eu quero, quem sabe não vou fazer música no fim do ano, quem sabe se eu sobreviver até lá… ahuiahuiahuiaha
    E a… acho que você deveria desenvolver melhor essa sua teoria de que fotografamos para interagir com o outro… porque ao que me consta fotografar coloca um empecilho, literalmente, e um materialmente entre você e o outro, a sua mediação com o outro é a partir de um aparelho, assim como eu estou fazendo agora mas tenho sã consciencia de que o estou fazendo porque é mais forte que eu mais necessario de ser dito, porque são minhas aflições, e ok, ninguém precisa ter nada com isso, mas só lê quem quer… e ver, a menos que comecemos a ser mais cegos do que somos, continuaremos a ser invadidos pelas imagens querendo ou não e definitivamente não quero continuar a proliferar isso, quero antes estar em algum lugar, onde as pessoas possam reorganizar a situação e se de lá der pra fazer fotos depois é depois e depois vemos isso… ai LOUCAAA

    ps: eu corrige umas coisas nunca leio antes de enviar preciso adquirir o habito então se você quiser aceitar aceite esse, eu gostaria de eu mesma poder deletar o outro…

    Resposta
  2. wicca

    tenho pensado sobre isso também.
    não sou mais fotógrafa. e sou funcionária (não de um equipamento)… e esse trabalho me propicia criar algumas relações e conhecer pessoas, e isso tem me interessado/preocupado mais que qualquer outra coisa.

    Resposta

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