Meu Corpo

O texto da Helouise que acompanhou as imagens do Meu Corpo no Itaú Cultural em 2005.

Exposição Meu Corpo Guilherme Maranhão Itaú Cultural

“Copiadas em papel fotográfico, as imagens de Guilherme Maranhão se assemelham a fotos tomadas através de lentes deformadoras. Puro engano. Não estamos diante de fotografias, no sentido estrito do termo. A série Meu Corpo reúne imagens provenientes dos limites incertos entre diferentes aparatos tecnológicos e propõe uma nova relação entre espaço, tempo, matéria e memória.

O mundo de Guilherme são as obras, os desperdícios e as sucatas de nossa tecnologia, que quanto mais se diz avançar mais deixa atrás de si os rastros da obsolescência. Ele produz suas imagens por meio dos aparelhos híbridos que inventa. Após desmontar um scanner, extrai seu sensor interno, que ao ser acoplado a uma lente de máquina fotográfica e a um computador passa a funcionar como uma câmara digital. Tal equipamento permite uma espécie de escaneamento do mundo visível, que se realiza quando é movimentado, às cegas, por seu operador.

Aqui cabe esclarecer o conceito de varredura. Como explica Guilherme, o scanner varre o que se coloca diante dele, linha por linha, a vai armazenando essas linhas, lado a lado, na memória do computador. Materializadas como fatias de tempo condensado, as linhas sucedem em continuidade, formando panoramas cuja amplitude fica limitada à extensão do braço de Guilherme e ao ambiente restrito de seu quarto. O resultado são imagens deformadas em função das dicotomias do procedimento. Ao encenar para si mesmo a própria intimidade, Maranhão submete a produção das imagens à ritmação de seu solitário gesto de auto-erotismo.

Essas imagens não são representações do mundo, mas recriações, segundo a lógica informática corrompida pelas interferências que Guilherme realiza no cerne dos equipamentos e de seus programas. Sua atitude pode ser interpretada como base no pensamento de Vilém Flusser, para quem a única possibilidade de criação por meio dos aparatos tecnológicos residiria justamente na subversão dos aparelhos, que descomprometidos de suas funções originais ficariam abertos ao exercício pleno da liberdade artísitica. Este é o caminho que, definitivamente, Guilherme não teme percorrer.”

Helouise Costa