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Sobre fotografia • histórias de Fátima Roque

A Fátima era chegada no barquinho que todo ano parte de Belém para explorar o Pará levando diversos tipos de pesquisadores, cientistas e artistas. Ela compartilhou comigo algumas pequenas histórias dessas viagens que me fazem pensar para que serve a fotografia e o que serve para fazer fotografia. 

Em Cametá ela encontrou um fotógrafo local especializado em retratos. Lima mostrou para ela como fazia as fotos e onde revelava esses filmes e fotos coloridos. Seu equipamento era apenas uma Olympus Pen de meio quadro, seu laboratório consistia em alguns pedaços de cano que funcionavam como tanques verticais dentro de uma caixa. O processamento em C-41 se dava a temperatura ambiente (de Cametá). A cada cliente o Lima cortava o pedaço exposto do filme colorido numa caixa escura e já revelava a ponta direto nos tanques. Dali para um ampliadorzinho e a cópia era revelada nos mesmo tanques. E o negativo acabava arremessado sobre a laje do laboratório para mofar e apodrecer.

Numa outra parada ela ofereceria uma oficina de cianótipo e marron van dyke, terminada a oficina os pedaços de tecido com cianótipos ainda estavam molhados, ela pediu ao alunos que voltassem de tarde para buscar as fotos. Eles voltaram e encontraram ela onde os pesquisadores se reuniam. De lá começaram a caminhar até o barco para buscar as imagens em tecido secas. No meio do caminho tinha uma loja com colchas e redes, ela pediu para os alunos escolherem uma colcha e ainda comprou uma caixa de alfinetes. Chegando ao barco pediu que a colcha fosse pendurada no convés e cada aluno pendurou sua imagem na colcha com os alfinetes. Então ela pediu que cada um buscasse seus amigos, sua família e que eles voltassem ao pôr-do-Sol para a abertura da primeira exposição deles. Apareceu todo mundo de banho tomado. O Sol ainda iluminava a colcha amarela, aos poucos cada um que ia embora foi retirando suas imagens e a colcha voltou a ficar vazia. E o Sol se pôs.

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Câmera Hagersville

Durante o tempo que passei no Canadá trabalhei numa empresa que fazia entre outras coisas muitas caixas de madeira para exportação de autopeças. Em uma das instalações dessa empresa, que habitava um antigo aeroporto militar abandonado em Hagersville, Ontario, havia uma fábrica de caixas que recebia de volta caixas retornáveis e reaproveitava ou reciclava esse material. Ao longo dos anos a pista de pouso de tornou uma enorme pilha de madeira sem fim e as pessoas da cidade podiam vir buscar madeira para as mais diversas finalidades.

hagersville tds plant wood pile

Em geral, depois de alguns dias sob neve e sol a madeira empenava e não servia para outra coisa que não a lareira, mas às vezes você dava sorte de pegar um carregamento de pontas recém colocado no páteo e que ainda estava fresquinho, madeira nova, nunca usada e em tamanhos pequenos e inúteis para a fábrica.

Num dia desses em 2001 eu acabei enchendo a mala do carro ainda sem saber o que seria daquilo. Em casa descarreguei tudo ao lado da serra de mesa e comecei a imaginar uma câmera caixa que pudesse ser feita com esses pedaços e com aquela serra, sem depender de outros cortes ou máquinas mais complexos. A pequena caixa foi batizada com o nome da cidade da fábrica. Fiz alguns desses exemplares e presenteei amigos. Cheguei a fazer uma folha de instruções bilíngue.

Ainda tenho essa última folha guardada num fichário antigo de idéias e projetos fotográficos.

A Fátima Roque foi uma das pessoas que ganhou uma Hagersville de presente e quando nos juntamos no projeto Mezanino do Itaú Cultural, com a Patricia Yamamoto também, a gente conseguiu que os moços de lá nos fizem outras tantas Hagersville adaptadas às madeiras compensado brasileiras. Isso virou a oficina que nós três oferecemos em Outubro de 2005. Essa é a foto que eu fiz da turma da tarde, a Hagersville abandonou o pinhole e passou a ter uma lente de lupa para gente fazer a oficina numa sala.

A história continua e eu conto mais em breve.