Travessia

O texto do Ronaldo que acompanhou as imagens da Travessia na Casa da Imagem em 2015.

exposição Travessia Guilherme Maranhão Casa da Imagem

Foi preciso uma longa gestação, cerca de vinte anos, para que uma película virgem se revelasse grávida justamente do tempo. Guilherme Maranhão, que nesses mesmos vinte anos desenvolveu um gosto particular por técnicas impuras, logo percebeu que ali já havia uma imagem latente. Não teve pressa em fazê-la aparecer. Mais do que se apropriar, deixou que essa imagem atravessasse sua história.
Partiu em busca de lugares que pudessem sediar esse encontro. Com essa película em sua câmera, percorreu estradas do mesmo modo que percorre a técnica: estudando profundamente os mapas não para definir um ponto de chegada, mas para descobrir a parte do território que permanece movediço. Quanto mais domina seus instrumentos, mais se abre ao desvio. Coletou paisagens pelo caminho, algumas um tanto banais, resultado de um olhar contagiado pela mesma disponibilidade serena daquele filme esquecido.
Usar um filme vencido – assim como desmontar e remontar câmeras – não é se voltar contra a técnica. É libertá-la de seu uso dogmático, é fazer reaparecer aquilo que foi recalcado no uso de seus dispositivos: uma natureza complexa da qual a ciência preferiu reter apenas as regularidades, um corpo desejante do qual muitos instrumentos um dia nasceram como extensões  e, ainda, o imaginário que reinventa todas as funcionalidades e faz as engrenagens dos aparelhos operarem sempre com jogo. Menos do que iluminar o aparelho, trata-se de permitir a manifestação de suas regiões mais obscuras, aquelas que continuam trabalhando quando tudo já foi decidido e os mecanismos parecem estar em repouso. O que foi recalcado da técnica só se torna imagem como velatura.
O que significa dizer que um filme está vencido? Que ele não está apto a gerar uma imagem? Ao contrário: ele se tornou sensível demais para responder a razão que constrange os potenciais da técnica. O que se esgota é apenas a responsabilidade que a indústria pode assumir sobre um produto: a partir daí, ele não está mais sob sua autoridade. Sem contrato, a matéria volta à sua condição de rebeldia. A palavra vencido esconde a arrogância de uma civilização que só consegue pensar a cultura como derrota da natureza: ou ela se comporta conforme o acordo que lhe é imposto ou é declarada obsoleta.
Com seu apreço pelas ruínas, o procedimento do artista se assemelha ao de um arqueólogo amador que usa sua própria fantasia como motor de suas descobertas. As imagens que Guilherme Maranhão capta tem sua força própria, mas funcionam também como ferramentas de escavação: são elas que trazem à superfície as marcas que a película acumulou em sua espessura. Dessa emulsão escavada em demasia, restam imagens escuras, mas muito bem ajustadas à tensão entre as paisagens e as manchas que nelas se sobrepõem. Às vezes, elas simplesmente se fundem, às vezes, uma ou outra reivindica sua prioridade.
As manchas já estavam lá, indiscriminadamente, ocupando também os espaços que a futura exposição do filme definiria como bordas. Em respeito a essa pré-existência, Guilherme Maranhão deixa muitas vezes que as manchas decidam o enquadramento das impressões finais. Em retribuição, elas emprestam suas texturas e desenhos ao mundo visto pelo artista e inventam passagens que ligam cenas distintas.
Encontramos aqui uma matéria que se mostrou sensível a diferentes formas de manifestação do tempo: à espera paciente de uma película que demorou a encontrar a luz, à gestualidade maturada na desmontagem de tantos aparelhos, a um olhar que permanece irrequieto diante de todo o saber consolidado, nesse longo processo de revelação de uma imagem que, mesmo
impressa, não cessa de se construir.

Ronaldo Entler

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