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Poderia me arriscar e dizer que é das coisas mais lindas que eu já fiz

Em 2015 eu estava fotografando bromélias com negativos de papel e acabei fazendo essa foto aqui, curto ela assim, como negativo mesmo. Tem uns 60x100cm e mais importante, ela não tem par, mesmo olhando com as outras imagens feitas nesses mesmos dias, ela distoa do grupo.

É uma ponta de papel de rolo esquecida na caixa, fungos por todas as bordas, manchas diversas, marcas do papel enrolado. O desfoque do menisco simples é incrível também.

Não é lindo?

São galáxias, constelações, clusters de estrelas, umas viagem pelo espaço sideral.

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Meu lab no Jornal da Band

Ontem um equipe da tv esteve aqui e registrou algumas imagens para uma matéria sobre quantidade de imagens que produzimos hoje em dia.

http://noticias.band.uol.com.br/jornaldaband/videos/ultimos-videos/16332118/trilhoes-de-fotos-sao-tiradas-todos-os-anos-no-mundo.html

Oficina • Negativos Digitais

Começa dia 18/10 no Sesc 24 de Maio: https://m.sescsp.org.br/#/cursos/134208

Existe uma esquina entre a fotografia digital e o laboratório preto-e-branco quando uma imagem obtida em uma câmera digital é impressa sobre um filme para depois ser impressa por contacto sobre um papel fotográfico. Com criatividade, uma impressora inkjet caseira e um pacote de transparências vamos criar negativos que podem ser usados para fazer cópias preto-e-branco no laboratório. Vamos estudar o uso das cores e das curvas para controlar os tons da imagem final.

Lembrança • Interferências

 

Eu tenho um amigo chamado Antonio Seara. Ele é um espanhol, muito boa gente, que já viveu 5 anos no Piauí, deu umas voltas por ai, e veio parar aqui em London, no frio Canadá.
Acho que nem ele sabe ao certo há quanto tempo a gráfica está presente na sua vida, mas hoje ele tem um negócio pequeno mas respeitável aqui na cidade, e edita o jornal Portugal Notícias para o qual eu também escrevo, é por isso que a gente se conhece.

A Prom-Art, empresa do Antonio, existe já há um bom tempo e já passou por boa parte da evolução do processo de impressão em off-set. Hoje em dia eles não fazem mais os filmes, ou fotolitos, a chapa sai direto de uma máquina que lê a imagem de uma arte final em papel. A chapa tem suporte de resina e não dura tanto quanto a de alumínio, mas para maioria dos serviços do Antonio não são necessárias tantas cópias assim.

E é por causa dessa história toda que o Antonio tem, ou melhor, tinha uma pilha de caixa de filmes positivos e negativos e papéis positivos numa prateleira na salinha da câmara de processo dele. Bom, eu ganhei esses maravilhosos presentes ainda sem saber o que fazer com eles… Afinal esses filmes têm pouca sensibilidade, estão todos vencidos desde 91 ou 92, são ortocromáticos, têm tamanhos pouco comuns (21x28cm, 25x30cm, 30x45cm) e não dá muito para saber se tal filme gera positivo ou negativo – se vocês lembram da vez em que eu usei o Kodak LPD4 Line film vocês agora sabem do que eu estou falando.

Mas como qualquer outro filme esquisito ou vencido que vem parar na minha mão, esses não foram exceção, comecei alguns testes para descobrir o que é o quê.

Eu tenho também uma amiga chamada Fátima Roque. Ela é uma brasileira, muito boa gente também, que já fez de tudo um pouco, como o Antonio. Ela é fotógrafa, até o último fio de cabelo, e vive me falando que está na hora de pegar uns negativos, fazer umas interferências, descobrir o que pode acontecer, essas coisas. Perder um pouco mais do medo de por tudo a perder.

E aqui a regra é misturar, para depois separar: fui buscar a caixa onde estavam os negativos (35mm) do meu trabalho sobre a recuperação de algumas pessoas que sobreviveram àquela explosão no Osaco Plaza Shopping. Preparei química normal para ampliação (revelador de papel em diluição 1:1, stop e fix). Posicionei um negativo no ampliador, e saquei a primeira caixa da pilha das caixas trazidas do Antonio (as caixas estavam empilhadas de acordo com seu tamanho, a maior embaixo de todas). Um filme tamanho 8,5×11 polegadas (21x28cm aprox.), acertei o marginador, acertei a altura da cabeça do ampliador, foco, 7 segundos, abertura f/8 talvez, luz de segurança, encontrei uma folha – usei o velho e bom método da saliva para descobrir o lado da emulsão, que ficou para cima – e mandei ver no botão do timer.

A imagem apareceu como se fosse a de uma cópia em papel fotográfico. O filme era negativo. Repeti isso com outros 6 negativos, noite a dentro. Lavei tanto as folhas que ficaram legais quanto as que não deram tão certo. Deixei tudo secando enquanto fui descansar.

No dia seguinte eu me perguntava o que fazer com aquelas várias imagens positivas penduradas no laboratório. Se eu tentasse uma prova de contato numa folha de papel a imagem sairia negativa. Pensei em repetir o processo, fazendo contato num outro pedaço de filme idêntico e dai sim obtendo um negativo, para depois contatar em papel fotográfico. Desci ao laboratório, preparei tudo como no dia anterior e comecei a fazer os contatos.
O que acontece é que o filme é bem contrastado, e esses negativos que eu estava criando já não tinham mais nenhum meio tom. Decidi parar um pouco.
Apaguei as luzes e fui investigar o que havia dentro de cada caixa, cada envelope vindo do Antonio: achei um tanto de papel num dos sacos pretos sem caixa. Tirei uma folha, sob a luz de segurança, pus sob um dos positivos criados no dia anterior, expus por uns 10 segundos no ampliador, meti na química. Papel positivo!!!

Contei o número de folhas: 15. Fechei o envelope, acendi a luz. Parei tudo, para repensar. Era pouco papel para fazer besteira. Sentei na mesa de luz com meus 7 negativos “tamanho carta”. Na cabeça lembranças da Fátima, do que ela me escrevia, das aulas que a gente tinha tido com a Ângela Di Sessa… fui buscar estilete, caneta, álcool, tesoura, fita adesiva e todos os positivos e negativos que tinham ficado ruins também.

O que seguiu foi uma sessão de tesourada e estiletada, risco, arranhões, rabiscos e sabe-se lá o que mais. Juntei tudo com fita adesiva.
Voltei para o laboratório, mas dessa vez misturei um pouco do revelador que eu havia trazido lá do Antonio, era um revelador para alto contraste. Fazer contato num papel positivo é engraçado, você tem que lembrar que a exposição afeta a densidade inversamente, e não diretamente como estamos acostumados. E que qualquer parte do papel que ficar sob as abas do marginador ficará preta. Bom, as exposições ficaram em torno dos 8 segundos em abertura f/8. Revelei os papéis por um minuto e meio num revelador que deve ser próximo ao D-8. E você pode ver o que que aconteceu. Eu ainda vou repetir tudo isso algumas vezes, depois que eu conseguir mais desse papel, para aprimorar o processo, e estudar outros tipos de interferência nessas imagens. Para que elas sejam menos teste e mais acerto.

Mas o importante é lembrar que esse material todo morava numa prateleira sob um tanto de poeira. Certo?

Lembrança • Ouro Preto

Revelando chapas em uma casinha no meio do mato

Ouro Preto na Páscoa. Já contei o principal dessa última viagem na última coluna. Ainda tenho os cianótipos mais para frente, mas hoje falo de revelar filmes fotográficos velhos em lugares dito impróprios.
Revelar papel fotográfico é bem mais simples do que filme. O papel é tolerante com a luz que o atinge durante o processamento. Revelar negativos em papel, expostos em câmaras de orifício, pode ser feito em quase qualquer lugar. Ou melhor, assim pensava eu, que filmes de ISO 400 seriam bem mais difíceis sem a luz vermelha para ajudar e mais sujeitos à velatura em ambientes não completamente escuros.

O sítio tinha essa casinha nos fundos, com apenas um quarto, uma salinha emendada na cozinha. A cozinha era quase um laboratório pronto, vazia, com pia, apenas uma janela para vedar contra a luz. A sala tinha janelas que fechavam completamente, não eram persianas, ufa! Um pano tipo “blackout” fechou a janela da cozinha. Apaguei as luzes. Nos chassis as chapas de Tri-X vencido desde 1981, exposto como ISO 50 na câmara pinhole de 4×5″ com oríficio equivalente a distância focal de 45mm, uma super grande-angular. Na cozinha, na sala, no teto, frestas inúmeras, deixando passar muita luz. Eu via o contorno das bandejas pretas sobre a pia de mármore branco. Via portas, janelas, via o chão, as pinças também sobre a pia e meu olho nem tinha tido tempo de se acostumar com o escuro. O telhado, sem forro, uma peneira.

Resolvi arriscar, abri o primeiro chassi, o segundo, fui separando todas as chapas em uma caixa de papelão. Eu podia ver claramente as chapas mais claras contra os chassis pretos. As 16 chapas devidamente separadas, coloquei uma a uma dentro da bandeja com revelador, agitando levemente. Eu via as chapas mais claras, dentro da bandeja, uma imagem bem fraca, mas conseguia ver. Achei a quarta bendeja que eu havia levado e que estava vazia, usei para cobrir a bandeja do revelador, protengendo um pouco as chapas que revelavam ali.

O revelador era o único que eu havia levado na viagem, o Selectol, um revelador de baixo contraste para papéis, com muito brometo, o que ajuda a segurar o véu de base dos materiais fotossensíveis. Isso com certeza foi um fator que ajudou a evitar um desastre de velatura. Passei as chapas para o interruptor e depois fixei. A luminária da cozinha parecia uma mesa de luz pequena, dessas do tamanho da própria chapa 4×5″, inclinada, aparafusada na parede. Levantei uma chapa que estava já no fixador, acendi a luz e o inimaginável havia acontecido, as chapas tinham menos véu de base do que com a revelação em laboratório sem improviso. O Selectol e a exposição forte (ISO 50) haviam vencido a luz que invadia a cozinha. O Luish fotografou esse momento.

O risco se pagou e as fotos das bromélias com a pinhole ficaram ótimas. A revelação ficou suave, mas limpa. E o filme de 1981 pode ser usado de uma maneira bacana.

Marginador 50x60cm • Reforma

As lâminas estavam com muita ferrugem sob a pintura. Raspei, lixei, apliquei Ferrox e pintei novamente.

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Os caminhos da ferrugem pretos depois do Ferrox.

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E o papel craft depois da pintura ter sido feita sobre ele.

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