Arquivo da tag: reaproveitamento

O tempo que leva

Comecei a fotografar na minha adolescência. O preço do filme sempre foi um problema. Muitas vezes me peguei escolhendo da bandeja dos filmes vencidos e tendo que lidar com o que quer que esses filmes tivessem de problemas. Minha maior prioridade era criar imagens e imprimi-las; minha experiência inicial me disse que a incerteza dos filmes vencidos não impedia as imagens de nascer. Impunha limitações, chegaremos a elas.

A data de validade no filme fotográfico marca um momento até o qual a resposta do filme à luz e produtos químicos é conhecida e está dentro de certos parâmetros. Com o passar do tempo, o filme perde sua sensibilidade à luz e fica velado com a radiação ambiental. Não é possível saber como cada rolo envelhece, todos o fazem de maneira diferente. Por outro lado, saber como é a resposta do filme ajuda o fotógrafo a imaginar como será a aparência de uma fotografia. Chamamos isso de visualização (graças a Ansel Adams). Algumas pessoas consideram a visualização de imagem final algo essencial. Na adolescência eu acreditei que ela até poderia ser útil, mas eu abria mão da visualização para fotografar o máximo possível e assim encontrei uma maneira racional de aceitar os filmes vencidos.

Então eu lentamente reuni conhecimentos sobre esses filmes vencidos, comparando sua idade e como haviam mudado devido a esse fato, tentando ter algum espécie de guia para antecipar os seus resultados.

Vale lembrar meu episódio com o Fomapan. Após o desastre de Chernobyl em 26 de abril de 1986, o filme em preto e branco produzido na República Tcheca era realmente difícil de vender. Preto em tcheco é “černo” e branco é “bílý”, então “negativní černobílý film” era uma sequência terrível de palavras para ter em qualquer embalagem, assustava os clientes. Em 1993, um importador de equipamentos fotográficos no Brasil conseguiu adquirir um grande lote deste filme, o prazo de validade era 1991. Este lote foi colocado à venda a preços muito baixos. Fomapan foi uma ótima ferramenta de aprendizado. Comprei uma sacola cheia de latas de 30 metros e elas duraram 5 anos enquanto eu explorava maneiras de expor e revelar aquele filme à medida que envelhecia ainda mais. Na maior parte do tempo, acabei usando um revelador que usava mais restringente para evitar o véu de base e álcali mais forte para adicionar contraste à imagem final, algo que aprendi a fazer.

Também tive muitas oportunidades de experimentar com papéis fotográficos. O papel preto e branco vencido dá imagens sem brilho se processado da maneira que o papel novo deveria ser. Normalmente, os brancos se tornam cinza antes que os negros se tornem escuros o suficiente para serem percebidos como negros por nossos olhos. Ao longo dos anos, explorei e aprendi muitas estratégias diferentes para produzir uma gama completa de tons a partir desses papéis antigos. Uma maneira era revelar bem às cópias e quando essas estivessem secas, usar um rebaixador para remover alguma densidade das áreas mais brilhantes até que estivessem de volta ao branco, outra maneira era experimentar com reveladores feitos para artes gráficas e tentar produzir cópias muito contrastadas imediatamente com estes papéis.

No início dos anos 2000, os primeiros itens da nossa vida digital começaram a aparecer no lixo. Eu rapidamente traduzi esse modus operandi do analógico para o digital.

Scanners com interface SCSI vendidos na década de 1990 tornaram-se obsoletos rapidamente sob o crescimento do USB. Para experimentá-los, era necessário encontrar os drivers corretos, a internet foi uma grande ajuda e com um pouco de pesquisa a maioria das coisas poderia ser posta a funcionar. Parte da pesquisa também era para encontrar sistemas operacionais adequados para executar os drivers e também hardware antigo o suficiente para executar esses sistemas operacionais confortavelmente. Descobri muitas coisas que poderia fazer com scanners obsoletos, isso gerou a uma grande coleção de software e hardware de computador obsoleto, um tipo novo de arqueologia.

Durante esses anos de coleta eu gastava menos com materiais. Assim eu fazia experiências com esse fluxo de trabalho híbrido. Fazia as imagens que eu sentia que precisava fazer. Por outro lado, eu estava gastando mais tempo para entender como cada peça desses sistemas funcionava.

Aprender a usar materiais que continham menos informações sempre foi desafiador de um jeito divertido. Comecei a desenvolver um gosto por materiais que tinham um nível de incerteza ainda maior: papel mofado, câmeras quebradas e assim por diante. Usava meu tempo para descobrir como eles ainda poderiam ser parte de um caminho até as impressões fotográficas.

Enquanto pesquisava, escrevia sobre esses caminhos ou processos: uma fotografia de 9 metros que imprimi durante uma noite em minha sala de estar, as imagens da impressora a laser que transferi para outro papel com solvente, um câmera 4×5″ que fiz com os restos de duas outras, imagens em uma câmera improvisada com um scanner de mesa ou de um scanner antigo com uma roda de filtro de cores. Esses pequenos artigos mais tarde se fundiram em um texto maior, enquanto eu procurava entender melhor meus próprios processos e organizar esses conhecimentos adquiridos. Reli diversas vezes e expandi este texto. Quanto mais escrevia sobre esses processos que experimentei, mais me sentia debatendo sobre o tempo que utilizei para realizar cada experimento e se estava satisfeito com as imagens que dele resultaram. Tomei consciência cada vez mais do tempo que leva para resolver essas imagens e de como o tempo era o principal custo associado a essas imagens.

Descobri outras coisas interessantes sobre meu próprio trabalho. Tabulando diversos relatos, percebi que sempre que eu viajava, fosse de férias ou a trabalho, se eu tivesse espaço para levar uma câmera pessoal, levava o que quer que estivesse em pior estado: o filme mais velho ou mais mofado, uma câmera que eu achasse que tinha consertado, mas que na verdade não tinha. Para obter certas imagens é necessário dar a esses materiais e equipamentos uma oportunidade, até mesmo que seja para estragar tudo. Isso se tornou uma regra para mim (que ainda faz sentido), se houver espaço para levar uma câmera pessoal, eu levarei o que estiver em pior estado.

E então fui escrever sobre a câmera de ultra grande formato que construí. Esse projeto começou com uma caixa de filme de artes gráficas de 16×20″ que ganhei em 2001 e alguma madeira que comprei em 2002. Arrastei esses itens comigo, voltando do Canadá para o Brasil em 2003 e os carreguei de um estúdio para outro nos anos seguintes. Eu finalmente comecei a construir a câmera por volta de 2010, mas não foi concluída até 2018. Foi uma grande empreendimento. Fiquei muito satisfeito com a câmera, seus recursos, suas capacidades. Fez tudo o que eu esperava que fizesse. Mas eu senti que não poderia dizer com certeza se valeu a pena. Talvez este projeto tenha alcançado um nível de complexidade que exigiu muito tempo e estudo. Isso me deixou muito ciente da quantidade de tempo e estudo que essas imagens custam para mim.

Percebi também que separo as variáveis ligadas a uma fotografia em dois conjuntos: no primeiro as variáveis ​​de assunto, os elementos incluídos na imagem; no outro as variáveis ​​técnicas, como os elementos são renderizados ou desenhados na imagem final. Exemplos de variáveis ​​de assunto: o assunto pode ser iluminado artificialmente, quem vai ser fotografado, a que horas do dia, a composição, onde você vai e que paisagem você consegue colocar na frente da câmera. As variáveis ​​técnicas acontecem assim que a luz entra na lente (em uma câmera com lente), no pinhole (em uma câmera pinhole) ou mesmo no material fotossensível (em uma fotografia sem câmera). São as escolhas feitas pelo fotógrafo de como a luz é registrada, como essa gravação é processada e como é exibida. Acredito que ambos os conjuntos de variáveis ​​estão presentes em todas as imagens fotográficas e ambos requerem algum tempo e estudo para serem definidos, escolhidos, negligenciados ou dominados.

Sobre a câmera de ultra grande formato cheguei a me perguntar o que seria diferente se eu tivesse feito as mesmas imagens com um equipamento mais portátil e prático (pensando sobre variáveis técnicas). Percebi que o que me incomodou foi demasiada atenção às variáveis técnicas das imagens e muito tempo sendo gasto para resolvê-las. Imaginei como seria deixar tudo igual na frente da câmera (as tais variáveis do assunto) e escolher uma configuração e um processo mais simples. E se eu tivesse descartado o filme e a madeira há muito tempo e investido em uma câmera digital com muitos megapixels? Não poderia fazer imagens semelhantes e me expressar de maneira semelhante? Ainda não encontrei a resposta, ou ainda não a verbalizei. Acho ainda que há uma outra pergunta por trás daquela: os dois conjuntos de variáveis ficam ligados por algo que ainda não percebi?

Não vou parar de procurar coisas interessantes nas lixeiras, pelo menos por enquanto, mas vou tentar me concentrar em coisas menos complexas.

Publicado originalmente em: https://efecetera.com/artigo-de-opiniao/o-tempo-que-leva/

Um novo cantinho para pensar e fazer

Nos idos de Novembro de 2019, tinha ajeitado uma outra garagem para ser meu primeiro ateliê aqui na terrinha, depois passei quase um ano sem garagem para fazer minhas bagunças, até que recentemente me mudei novamente para um local com uma garagem.

Aos poucos nesse meio tempo, fui juntando um monte de tranqueiras para experimentar: scanners, webcams, impressoras, computadores antigos, cabos diversos, algumas ferramentas, parafusos, LEDs, máquina de costura, monitor, cafeteira. Organizei as coisas pequenas com potes de iogurte grego do supermercado Lidl, os parafuso com potes de vidro de geléia, as peças maiores dentro de um armário reaproveitado do banheiro da casa.

Inkset colorido feito em casa na Epson R3000

Essa história começou em Agosto de 2020, chegou aqui uma impressora Epson R3000 que tinha uns entupimentos. Me ocorreu de tentar fazer um inkset colorido improvisado em casa, usando a diluição do Carbono como exemplo e tintas vencidas ou de outros fabricantes como base.

Cheguei a fazer um post em Setembro de 2020 sobre essas idéias. Tinha conseguido umas tintas vencidas. Depois fiquei esperando a tinta amarela chegar da China. Isso só aconteceu entre o Natal e o Ano Novo. Então, no dia 31 de dezembro, aproveitando a tranquilidade que reinava na casa, fiz um primeiro teste.

Misturei a base usada para diluir o carbono e carreguei os tanques tipo CISS que eu instalei na R3000. A base foi usada para fazer o Light Cian, o Light Magenta, o Light Black e o Light Light Black. O Light Cian diluiu e ficou bem depois de 24h. O Light Magenta apresentou alguma separação. O pior foi o LLK, esse não misturou bem mesmo e algumas horas depois já estava separando.

De qualquer maneira, segui em frente. Ao ligar a impressora dessa vez, veja que já tinha usado os cartuchos com líquido de limpeza para um teste curto, a impressora ficou puxando tinta um bom tempo. Imagino que estava cuspindo a tinta parada na cabeça.

Eu tinha providenciado o software de manutenção para fazer um ink charge, mas deixei de lado. Pude ver a quantidade de tinta que foi puxada pela mudança no nível dos tanques.

Ainda tive um pequeno susto, perfurei um dos tanques internos e muita tinta se esvaiu para dentro da impressora. Fiz um reparo temporário e continuei.

Fiz algumas cópias com um papel genérico e brilhante, mas não tenho certeza de que a tinta nova já chegou à cabeça da impressora. Parece que ainda estou usando a tinta que estava parada lá dentro. Em algum momento será possível expelir toda a tinta velha e o líquido de limpeza, e dai sim chegar à tinta nova.

Encomendei novos tanques para poder parar de usar o que foi perfurado. Agora vou atrás de um papel fosco que eu possa usar nesses experimentos.

Achando novos lixos

No quadro de referências do meu TCC eu sempre lembro que incluí um lindo filme que Agnes Varda fez em 2000, entitulado Les Glaneurs et la Glaneuse. O filme é inspirado no quadro Des glaneuses, de Jean-François Millet, de 1857 que retrata um grupo de respigadeiras. Respigadeiras são pessoas que após a colheita adentram propriedades agrícolas e vasculham o chão em busca de alimentos que não foram colhidos e essa atividade é protegida por lei em boa parte do território francês. Nesse filme Agnes entrevista diversos tipos de pessoas sobre atitudes similares às das respigadeiras.

Uma das entrevistas é com um morador de Lyon que explica como a prefeitura o ajuda fazendo folhetos que informam dia, hora e local onde ele pode ir recolher coisas do lixo. Agnes questiona se o folheto na realidade não foi feito para quem quer se desfazer do lixo e informa onde a prefeitura vai recolher, eles riem e ele concorda.

Segui essa lógica reversa para começar a descobrir para onde vão os eletrônicos obsoletos nesse novo lugar onde estou. Aos poucos fui fazendo um rota que passa por esse locais no meu dia-a-dia e encontrando coisas que podem ser usadas para gerar imagens rudimentares ou para processar imagens também. Scanners mesmo, é difícil, hoje até vi um, mas era porta serial ainda, anterior ao USB, dai fica fora da minha alçada.

Enquanto isso a tinta que falta para a conversão da Epson R3000 está passeando pela Ásia e pelo Leste Europeu, mas um dia ela chega.

A história desse blog

Esse blog nasceu em Junho de 2005 quando eu começava a pensar no TCC do curso de bacharelado em Fotografia. Comecei pela plataforma Blogspot e mantive o endereço apenas para mim, eram notas para o texto.

O texto do nasceu da idéia de consolidar os relatos de processo que eu tinha escrito até então. Esses relatos eram desde colunas que escrevi para o Fotosite até artigos para o portal Fotopro. O assunto de cada um era sempre alguma quebrada ou estragada que eu tinha dado um jeito de usar para criar imagens. Juntei todos, expandi. Depois comecei a escrever sobre o ato de reaproveitar essas coisas fotográficas e procurar referências para ajudar num diálogo.

O texto ficou pronto, o orientador não me colocou nenhum empecilho muito grave, fui para a banca e me tornei bacharel no fim daquele ano.

Um tempo mais tarde, exportei e migrei para WordPress e dai comecei a incluir o endereço do blog em outros lugares. Comecei a publicar notas e fotos dos processos com os quais estava envolvido. Nunca tive compromisso com o blog, nunca tive muito público também. De certa forma o blog continuava sendo um exercício interno de anotar etapas, descobertas e frustrações do caminho.

Em diversos momentos pensei em mudar do português para o inglês. Mas me perguntava o que de bom os page views poderiam trazer também. Dai continuava em português.

Reler o texto do TCC foi se tornando cada vez mais incômodo. Os anos passam e a gente vai entendendo algumas coisas. Cada vez que reli, pensei que seria legal retomar o texto, rescrever diversas passagens, expandir outras, adicionar os artigos que vieram depois. Contas mais histórias.

Em 2019 finalmente me vi numa situação em que a insônia foi de encontro a esse antigo desejo. Comecei juntando tudo que eu já tinha escrito depois que se assemelhava em gênero e depois fui reordenando. Fiz diversas pausas, retomei mais tarde depois que já estava em Portugal. Com as restrições impostas pela pandemia, recentemente cheguei num momento em que posso dizer que reli e revi todo o texto.

Não está nada pronto, mas não me incomoda o texto tão ferozmente quando antes, só um pouco. Ainda existem histórias que estão faltando, mas já consigo imaginar uma nova etapa para tudo isso que contei aqui no blog e nos artigos por ai. Vou começar a desenhar um livro digital que possa ser baixado através das plataformas mais comuns. E torcer para o texto fazer mais e mais sentido.

Da câmara artesanal ao scanner-camera • FBAUP

Só um alerta para esse talk no mês que vem, e aqui já tem o link no site da Fbaup: https://www.fba.up.pt/2020/02/19/da-camara-artesanal-ao-scanner-camara-guilherme-maranhao/

-update- o evento foi cancelado dentro da quarentena do covid-19

Dioptro Optica

Quem acompanha pelos Stories viu que eu fui conhecer a oficina da Dioptro, a empresa do Rogério. O Wagner e o Rogério são os criadores da Dioptro Petzval Portrait, a objetiva petzval feita no Brasil para câmeras reflex e mirrorless.

Uma coisa interessante é que a maioria das máquinas usadas na fabricação das lentes e espelhos da Dioptro são adaptações feitas pela própria equipe a partir de ferramentas e/ou máquinas para metal ou madeira. O lugar é coberto por uma fina camada de pó branco, uma mistura de pó de vidro e dos diversos tipos de pós usados nas etapas de polimento das peças, isso confere um clima etéreo ao lugar.

Interessante como nesse ponto que estamos do avanço tecnológico dos equipamentos fotográficos os fotógrafos se voltam para os design antigos de objetivas em busca do efeito tridimensional que se perdeu com adição de mais e mais elementos e a hiper correção dos defeitos óticos das lentes.

O café no final da visita estava muito bom, o papo ainda melhor. A cafeteira uma ode aos três Rs: reduza, reuse, recicle.

Agfa Ansco 8×10″

Foi na época quando eu morava no Canadá que a Alt Camera Exchange fechou as portas quando foi comprada pelo Henry’s. Os caras organizaram um bota fora que era para acontecer num sábado às 9h00. Eu vinha de outra cidade e com medo de atrasar acabei chegando umas 8h15 na porta da loja e assim sendo virei o terceiro da fila que já se formava.

Às 9h00 a porta se abriu e os primeiros 5 puderam entrar. Eu fui direto ao segundo andar onde tinham as coisas de laboratório e lá eles tinham posto outras coisas pelo chão, entre elas essa 8×10″ da Agfa Ansco em pedaço dentro de uma caixa. Ainda cacei outras coisas, mas não podia carregar muito mais.

Na verdade a câmera estava coberta de fórmica preta e tinha cantoneiras de alumínio, queriam esconder a idade dela, mas estava mal feito e comprometia o funcionamento das coisas. Tinha um back deslizante para fazer retratos e um obturador Packard entuchado dentro do fole que não estava legal. Passei o resto do fim-de-semana tirando esses excesso e tentando entender quais eram os problemas.

Fiz um artigo na época contando a primeira reforma:

“Pesquisei e descobri que a câmera era uma Agfa-Ansco Commercial, mas para ser capaz de identificá-la foi preciso muita paciência para descolar os inúmeros pedaços de fórmica preta que recobriam a corpo de madeira. Os cantos haviam sido arrematados com perfil de alumínio, muitos parafusos tinham sido usados para manter tudo isso no lugar, deixando vários furos na madeira do corpo. A câmera havia sido preparada para trabalho em um estúdio de retrato, imagino, ao invés de usar chapas de 8×10”, tinha uma traseira redutora para 4×5” que era capaz de girar oferecendo possibilidade de composição vertical e horizontal rapidamente. Sóo vidro despolido que estava montado nessa traseira da câmera superava o valor pago em todo a compra daquela manhã, era um despolido da Sinar. Dentro do fole, escondido atrás do lensboard havia um obturador Packard dos grandes (operado a ar) cuja mangueira passava pelo fole e saia pela lateral da traseira. O fole, por sinal, estava novo.

Percebi que o mecanismo do shift frontal estava rachado, toda a frente estava abalada. Percebi também que uma peça importante estava faltando, parte do mecanismo que mantia a câmera aberta, em posição de uso. Usei um pouco de cera para devolver vida àmadeira e comecei a pensar como solucionar os dois problemas principais. Com dois blocos de madeira – que infelizmente não eram de uma cor apropriada mas eram os que estavam disponíveis – reforcei a frente da câmera e isso bastou para que pudesse extender todo o fole sem que a frente se torcesse para trás tirando a imagem de foco. Cortei os blocos em uma forma apropriada para encaixar no canto entre as peças soltas e colei o bloco no lugar. Em seguida coloquei uns parafusos para garantir a firmeza dessa montagem. Para o mecanismo de shift usei cola para juntar os pedaços da madeira que haviam se quebrado e com dois sargentos deixei secar sob pressão.

Para manter a câmera aberta pensei em várias saídas, mas quase todas dependiam de metais pré-moldados de formas que não seriam de fácil obtenção. Resolvi que a cabeça do tripé faria essa função, já que teria que providenciar uma cabeça para essa câmera de qualquer forma. Consegui numa sucata um suporte para computador touchscreen que nada mais era que uma enorme dobradiça. Prendi uma barra de polietileno nesse suporte e fiz dois furos possibilitando que dois parafusos se prendessem às duas pontas da câmera. Com a câmera presa assim ela ficaria aberta e firme para a usar.

A câmera funcionava na teoria. Não havia lente, não havia traseira para filme de 8×10 polegadas. É verdade que a era digital facilitou a busca pelas lentes e logo eu havia conseguido algumas que serviam para cobrir esse formato de filme. Cortei compensado para os lensboards (dessa vez sem massa plástica) e comecei a montar as lentes. Descartei o lensboard que veio com a câmera porque este tinha muitos furos.

Para traseira cheguei a fazer algumas buscas por sites de leilões, mas acessórios para esse tipo de câmera são muito raros e nada achei. Juntei alguns pedaços de madeira e comecei a cortar. Achei alguns retalhos de acrílico fosco em uma caçamba nos fundos de uma loja de plásticos, o tamanho dos retalhos não era suficiente, um amigo me emprestou uma cola e juntei dois retalhos para conseguir fazer o despolido da traseira. Achei molas em uma loja de sucata. Consegui construir uma traseira que aceitasse o porta-filmes padrão para o formato 8×10”. A câmera funcionou.”

Nos anos seguintes troquei as molas do back 8×10″, consegui um back 5×7″ num fórum norte-americano de fotografia em grande formato e pensei muito numa solução para não usar mais os lensboard de madeira que eram muito grandes.

Em 2005 minha mãe me ajudou a fazer um case em lona crua e EVA para levar a câmera para lá e para cá. Com esse case e um carrinho de bagagem eu fiz retratos em Paranapiacaba, fotografei em Ubatuba, ainda tem areia dentro dele.

Dai um dia lendo o mesmo fórum, vi um post sobre uma Korona 8×20″ que tinha ganho uma frente de uma outra câmera e vislumbrei a reforma com a frente da Toyo que eu mostro aqui: https://refotografia.wordpress.com/2013/03/16/agfa-ansco-8×10-%E2%80%A2-reforma/ Essa reforma resolveu o grande problema da câmera que era a frente, que veio quebrada e que mesmo consertada nunca tinha funcionado muito bem, às vezes o painel frontal escorregava e a imagem saia de enquadramento.

guilherme maranhão fotografando em 8x10"

Bieka no Ibirapuera

Há uns bons anos atrás eu ganhei uma Bieka bem conservada. Coloquei um filme EPT 120, cromo tungstênio ISO 160 e dei umas voltas pelo parque Ibirapuera.

A câmera 6x9cm permitia que fossem tiradas quantas fotos eu quisesse em cada quadro, até que eu avançasse o filme.

Esses negativos, que eu revelei em C-41 no meu lab, ficaram no fundo de uma caixa de papel fotográfico não identificada por engano, e eu os encontrei hoje. Surpreso, coloquei alguns no DT-s1030ai e fiz alguns scans para ver o que é possível fazer com eles.

Os negativos estão mais ou menos assim:

Screen Shot 2016-07-11 at 5.00.38 PM

O negativo na verdade tem mais véu de base que isso, eu cancelei bastante dele com a calibragem do scanner cilíndrico (esse não é o jeito correto de escanear negativos cor, mas é um atalho que às vezes rende bons frutos). Note que o filme vencido já tinha um lado com pigmentos alterados.

Depois de um pouco de edição a primeira imagem ficou assim:

parque01_web

Ainda preciso fuçar nos outros negativos desse dia e descobri o que pode alinhavar uma história entre as imagens.

O que fazer com um Powermac G5?

Digitei a frase acima em diversas línguas no Google, tentei de toda maneira encontrar algo que não fosse simplesmente aproveitar o case do computador para colocar outro computador dentro.

O site Everymac mostra o preço de lançamento como 1999 dólares em 2005. http://www.everymac.com/systems/apple/powermac_g5/specs/powermac_g5_dual_2.0.html É muito dinheiro para algo realmente inútil hoje em dia. No mercado de usados um G5 vale menos que um Mac Mini Core Duo. O G5 além disso produz mais calor e gasta mais eletricidade, faz mais barulho.

O fato é que esse foi um dos últimos computadores a serem lançados com o chip PowerPC da IBM antes da mudança para Intel. Então apesar de ser um computador super poderoso que deveria durar até hoje, ele não pode usar os softwares e o OS disponíveis agora, ficou preso ao OSX 10.5.8.

E por outro lado não pode também ser usado como um computador vintage já que nesses modelos a Apple abandonou a expansão PCI que torna os computadores capazes de serem ligados a scanners antigos, por exemplo, com placas SCSI. Ou seja, um case enorme cheio de espaço, mas um computador inviável de expandir atualmente. Logo, o que fazer com um PowerMac G5?