Arquivo do autor:Guilherme Maranhão

Meu lab no Jornal da Band

Ontem um equipe da tv esteve aqui e registrou algumas imagens para uma matéria sobre quantidade de imagens que produzimos hoje em dia.

http://noticias.band.uol.com.br/jornaldaband/videos/ultimos-videos/16332118/trilhoes-de-fotos-sao-tiradas-todos-os-anos-no-mundo.html

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Oficina • Negativos Digitais

Começa dia 18/10 no Sesc 24 de Maio: https://m.sescsp.org.br/#/cursos/134208

Existe uma esquina entre a fotografia digital e o laboratório preto-e-branco quando uma imagem obtida em uma câmera digital é impressa sobre um filme para depois ser impressa por contacto sobre um papel fotográfico. Com criatividade, uma impressora inkjet caseira e um pacote de transparências vamos criar negativos que podem ser usados para fazer cópias preto-e-branco no laboratório. Vamos estudar o uso das cores e das curvas para controlar os tons da imagem final.

Lembrança • Interferências

 

Eu tenho um amigo chamado Antonio Seara. Ele é um espanhol, muito boa gente, que já viveu 5 anos no Piauí, deu umas voltas por ai, e veio parar aqui em London, no frio Canadá.
Acho que nem ele sabe ao certo há quanto tempo a gráfica está presente na sua vida, mas hoje ele tem um negócio pequeno mas respeitável aqui na cidade, e edita o jornal Portugal Notícias para o qual eu também escrevo, é por isso que a gente se conhece.

A Prom-Art, empresa do Antonio, existe já há um bom tempo e já passou por boa parte da evolução do processo de impressão em off-set. Hoje em dia eles não fazem mais os filmes, ou fotolitos, a chapa sai direto de uma máquina que lê a imagem de uma arte final em papel. A chapa tem suporte de resina e não dura tanto quanto a de alumínio, mas para maioria dos serviços do Antonio não são necessárias tantas cópias assim.

E é por causa dessa história toda que o Antonio tem, ou melhor, tinha uma pilha de caixa de filmes positivos e negativos e papéis positivos numa prateleira na salinha da câmara de processo dele. Bom, eu ganhei esses maravilhosos presentes ainda sem saber o que fazer com eles… Afinal esses filmes têm pouca sensibilidade, estão todos vencidos desde 91 ou 92, são ortocromáticos, têm tamanhos pouco comuns (21x28cm, 25x30cm, 30x45cm) e não dá muito para saber se tal filme gera positivo ou negativo – se vocês lembram da vez em que eu usei o Kodak LPD4 Line film vocês agora sabem do que eu estou falando.

Mas como qualquer outro filme esquisito ou vencido que vem parar na minha mão, esses não foram exceção, comecei alguns testes para descobrir o que é o quê.

Eu tenho também uma amiga chamada Fátima Roque. Ela é uma brasileira, muito boa gente também, que já fez de tudo um pouco, como o Antonio. Ela é fotógrafa, até o último fio de cabelo, e vive me falando que está na hora de pegar uns negativos, fazer umas interferências, descobrir o que pode acontecer, essas coisas. Perder um pouco mais do medo de por tudo a perder.

E aqui a regra é misturar, para depois separar: fui buscar a caixa onde estavam os negativos (35mm) do meu trabalho sobre a recuperação de algumas pessoas que sobreviveram àquela explosão no Osaco Plaza Shopping. Preparei química normal para ampliação (revelador de papel em diluição 1:1, stop e fix). Posicionei um negativo no ampliador, e saquei a primeira caixa da pilha das caixas trazidas do Antonio (as caixas estavam empilhadas de acordo com seu tamanho, a maior embaixo de todas). Um filme tamanho 8,5×11 polegadas (21x28cm aprox.), acertei o marginador, acertei a altura da cabeça do ampliador, foco, 7 segundos, abertura f/8 talvez, luz de segurança, encontrei uma folha – usei o velho e bom método da saliva para descobrir o lado da emulsão, que ficou para cima – e mandei ver no botão do timer.

A imagem apareceu como se fosse a de uma cópia em papel fotográfico. O filme era negativo. Repeti isso com outros 6 negativos, noite a dentro. Lavei tanto as folhas que ficaram legais quanto as que não deram tão certo. Deixei tudo secando enquanto fui descansar.

No dia seguinte eu me perguntava o que fazer com aquelas várias imagens positivas penduradas no laboratório. Se eu tentasse uma prova de contato numa folha de papel a imagem sairia negativa. Pensei em repetir o processo, fazendo contato num outro pedaço de filme idêntico e dai sim obtendo um negativo, para depois contatar em papel fotográfico. Desci ao laboratório, preparei tudo como no dia anterior e comecei a fazer os contatos.
O que acontece é que o filme é bem contrastado, e esses negativos que eu estava criando já não tinham mais nenhum meio tom. Decidi parar um pouco.
Apaguei as luzes e fui investigar o que havia dentro de cada caixa, cada envelope vindo do Antonio: achei um tanto de papel num dos sacos pretos sem caixa. Tirei uma folha, sob a luz de segurança, pus sob um dos positivos criados no dia anterior, expus por uns 10 segundos no ampliador, meti na química. Papel positivo!!!

Contei o número de folhas: 15. Fechei o envelope, acendi a luz. Parei tudo, para repensar. Era pouco papel para fazer besteira. Sentei na mesa de luz com meus 7 negativos “tamanho carta”. Na cabeça lembranças da Fátima, do que ela me escrevia, das aulas que a gente tinha tido com a Ângela Di Sessa… fui buscar estilete, caneta, álcool, tesoura, fita adesiva e todos os positivos e negativos que tinham ficado ruins também.

O que seguiu foi uma sessão de tesourada e estiletada, risco, arranhões, rabiscos e sabe-se lá o que mais. Juntei tudo com fita adesiva.
Voltei para o laboratório, mas dessa vez misturei um pouco do revelador que eu havia trazido lá do Antonio, era um revelador para alto contraste. Fazer contato num papel positivo é engraçado, você tem que lembrar que a exposição afeta a densidade inversamente, e não diretamente como estamos acostumados. E que qualquer parte do papel que ficar sob as abas do marginador ficará preta. Bom, as exposições ficaram em torno dos 8 segundos em abertura f/8. Revelei os papéis por um minuto e meio num revelador que deve ser próximo ao D-8. E você pode ver o que que aconteceu. Eu ainda vou repetir tudo isso algumas vezes, depois que eu conseguir mais desse papel, para aprimorar o processo, e estudar outros tipos de interferência nessas imagens. Para que elas sejam menos teste e mais acerto.

Mas o importante é lembrar que esse material todo morava numa prateleira sob um tanto de poeira. Certo?

Rede de conhecimento

Talvez o título desse post devesse ser Rede de Arqueologia do Conhecimento, afinal vou falar de conhecimento sobre máquinas obsoletas e encontrar e organizar conhecimento sobre elas é quase como o trabalho do arqueólogo.

O que me fez pensar nesse post foi um thread que está rolando no Large Format Photography Forum há um bom tempo: Screen Cezanne Users Unite começou em 2008 e já já fará 10 anos. Ou seja, faz quase 10 anos que os usuários dos scanners Cezanne da marca Screen se juntaram em um único thread nesse fórum para discutir como faz suas máquinas funcionarem corretamente. E foi nesse post, graças a um alemão chamado Christian que eu aprendi o submundo do software que controla o Cezanne e consegui fazer o scanner entregar arquivos mais adequados à década em que vivemos.

Por exemplo, um outro thread bem longo nesse fórum é um sobre um ampliador Durst L1840 que também está próximo de completar 10 anos. Enfim, esse fórum existe desde 1997 e esses threads bem longos falam a mim sobre a internet e a generosidade.

Lembrança • Ouro Preto

Revelando chapas em uma casinha no meio do mato

Ouro Preto na Páscoa. Já contei o principal dessa última viagem na última coluna. Ainda tenho os cianótipos mais para frente, mas hoje falo de revelar filmes fotográficos velhos em lugares dito impróprios.
Revelar papel fotográfico é bem mais simples do que filme. O papel é tolerante com a luz que o atinge durante o processamento. Revelar negativos em papel, expostos em câmaras de orifício, pode ser feito em quase qualquer lugar. Ou melhor, assim pensava eu, que filmes de ISO 400 seriam bem mais difíceis sem a luz vermelha para ajudar e mais sujeitos à velatura em ambientes não completamente escuros.

O sítio tinha essa casinha nos fundos, com apenas um quarto, uma salinha emendada na cozinha. A cozinha era quase um laboratório pronto, vazia, com pia, apenas uma janela para vedar contra a luz. A sala tinha janelas que fechavam completamente, não eram persianas, ufa! Um pano tipo “blackout” fechou a janela da cozinha. Apaguei as luzes. Nos chassis as chapas de Tri-X vencido desde 1981, exposto como ISO 50 na câmara pinhole de 4×5″ com oríficio equivalente a distância focal de 45mm, uma super grande-angular. Na cozinha, na sala, no teto, frestas inúmeras, deixando passar muita luz. Eu via o contorno das bandejas pretas sobre a pia de mármore branco. Via portas, janelas, via o chão, as pinças também sobre a pia e meu olho nem tinha tido tempo de se acostumar com o escuro. O telhado, sem forro, uma peneira.

Resolvi arriscar, abri o primeiro chassi, o segundo, fui separando todas as chapas em uma caixa de papelão. Eu podia ver claramente as chapas mais claras contra os chassis pretos. As 16 chapas devidamente separadas, coloquei uma a uma dentro da bandeja com revelador, agitando levemente. Eu via as chapas mais claras, dentro da bandeja, uma imagem bem fraca, mas conseguia ver. Achei a quarta bendeja que eu havia levado e que estava vazia, usei para cobrir a bandeja do revelador, protengendo um pouco as chapas que revelavam ali.

O revelador era o único que eu havia levado na viagem, o Selectol, um revelador de baixo contraste para papéis, com muito brometo, o que ajuda a segurar o véu de base dos materiais fotossensíveis. Isso com certeza foi um fator que ajudou a evitar um desastre de velatura. Passei as chapas para o interruptor e depois fixei. A luminária da cozinha parecia uma mesa de luz pequena, dessas do tamanho da própria chapa 4×5″, inclinada, aparafusada na parede. Levantei uma chapa que estava já no fixador, acendi a luz e o inimaginável havia acontecido, as chapas tinham menos véu de base do que com a revelação em laboratório sem improviso. O Selectol e a exposição forte (ISO 50) haviam vencido a luz que invadia a cozinha. O Luish fotografou esse momento.

O risco se pagou e as fotos das bromélias com a pinhole ficaram ótimas. A revelação ficou suave, mas limpa. E o filme de 1981 pode ser usado de uma maneira bacana.

Lembrança • RWS

Quem primeiro me vem à mente quando cito as técnicas-lixo é o Rodrigo Whitaker Salles, fotógrafo. Rodrigo é mais velho que eu, e eu educamente nunca perguntei o quanto. Ele já foi presidente do Fotocineclube Bandeirantes, ou seja, vem de um ambiente onde durante muito tempo se discutiu a técnica fotográfica. Não é a toa que ele é grande conhecedor de diversos equipamentos e chegou até a trabalhar na Edict que fazia fotoquímicos. Para mim, o mais importante do conhecimento do Rodrigo é que são informações de outra época, ou seja, outro ponto de vista, outra relação com as coisas, ele começou a fotografar quando ainda se dava alguma importância para os conhecimentos do fotógrafo em relação ao equipamento. Quando ainda se via o equipamento como algo que deveria ser dominado pelo fotógrafo. Rodrigo faz isso.

Foi ele que me ensinou, por exemplo, a fazer fotos panorâmicas com minhas câmaras de grande formato, e ainda “economizar” filme. Esse método consiste em cortar um darkslide no meio de modo a permitir que apenas metade de cada chapa seja exposta de uma vez. Me abriu as portas para esse formato novo, o “dois por cinco”, ou o “dois e meio por sete”. Curiosamente um dia encontrei ele no vão do Masp, onde ele fotografava com os restos da Bender dele, uma lente 47mm e os tais darkslides cortados.

Quando falamos de pinhole, foi ele quem me ensinou uma outra coisa: usar o ampliador para medir os tamanhos dos orifícios usados nas câmaras de latinha. Com uma folha de sulfite, uma regra plástica transparente e um lapis é muito fácil calcular o tamanho de um orifício emum ampliador, basta posicionar a régua no portanegativos, e com a lâmpada ligada fazer dois riscos que equivalem a um milímetro, depois troca-se a régua pelo alumínio com o furo e mais dois riscos onde se projeta o círculo, no que equivale ao seu diâmetro. Com a própria régua agora se comparam as duas distâncias, e por regra de três se chega ao tamanho do orifício.

Essas duas dicas são subversivas, se observadas sob o ponto de vista do que cada ferramenta dessas é projetada para fazer. O ampliador é feito para ampliar, e não para medir. O darkslideé feito para esconder, e não para mostrar. Isso aos olhos de Flusser é um passo em direção da expansão do programa.

Lembrança • Meu primeiro bege sério

Esse texto eu achei na pasta das colunas que eu escrevi para o Fotosite. Ele trata do desafio de aprender a usar um computador velho para fazer funcionar um scanner ainda mais velho. Isso só tem piorado com o passar do tempo, mas eu continuo insistindo, estranho né?

Na semana da Páscoa, aproveitei o bode geral e me mandei para um sítio em Ouro Preto. Era um grupo grande de amigos por lá e sempre rolavam aquelas partidas de buraco noite adentro na falta do que mais fazer (o céu permaneceu nublado os quatro dias, caso contrário, provavelmente fotografaríamos as estrelas). E enquanto jogava baralho, percebi que existem duas estratégias no buraco: ou o jogador coleciona todas as cartas que pode, ou comprando do baralho ou pegando da mesa, ou o jogador corre para a batida mantendo uma mão leve. Enquanto um se enche de possibilidades, o outro fica só com as cartas mais ágeis.

Na fotografia eu guardo muitas coisas e espero, espero e espero, tentando fazer um jogo bem bacana. Vou buscando coisas fotográficas ou informáticas, que vou juntado até poder reviver um meio de gerar imagens novas com coisas velhas. Foi numa dessas que, depois de tanto juntar scanners e outros periféricos com interface SCSI, tive que “comprar uma carta do baralho”, ou seja, ir atrás de um Mac bege para ver o que dessa coleção de fato funcionava e poderia se comunicar com o resto das minhas tranqueiras ligeiramente mais modernas. O pré-requisito para essa máquina era já ter SCSI e ethernet, assim eu poderia ligar a máquina aos periféricos e à rede.

Na região da rua Santa Efigênia, em São Paulo, existem algumas lojas que já se especializaram em Macs e não é difícil esbarrar neles por lá. Numa dessas lojas encontrei várias torres G3 beges com 266 Mhz. Era mais ou menos isso que eu procurava. Era tudo uma bagunça e tive que abrir pelo menos umas 6 para achar uma que estivesse completa com HD, memória de vídeo e cabos internos. O preço era dentro do meu orçamento: R$ 180. Com um pouco de carinho a máquina até chegou a ligar na loja, bem promissor.

Chegando ao ateliê, a máquina ligada emitia na tela, repetidamente, a mensagem “can’t open”, durante vários segundos, até que finalmente começava a ligar, carregando o sistema. Pesquisando no google, descobri que esse erro de firmware é típico de Macs dessa época, após uma tentativa frustrada de instalar um sistema mais moderno. Abri uma tela e digitei o que mandava um site francês e tudo se resolveu, boots perfeitos daqui em diante. Verificando as propriedades da máquina através de algumas ferramentas do sistema levei tamanho susto, havia um chip G4 dentro do meu computador! E rodava quase com o dobro da velocidade marcada na etiqueta externa (mas esse fato não era realmente perceptível). E pior, nenhum cache instalado no RAM! Desliguei tudo e abri a máquina. De fato, estava ali um chip Motorola 7410 (o G3 seria o Motorola 750). O computador em si não parecia nem um pouco incomodado com o chip mais moderno, só não reconhecia suas maiores e melhores funcionalidades.

De volta ao google, fui cair no site da Powerlogix, um fabricante de kits para upgrades. Encontrei um software capaz de explicar para um computador tão velho o que fazer com um processador não tão velho e como reconhecer o cache presente no próprio chip. Instalei esse software e tudo começou a correr muito bem e muito rápido! Estava diante de um G3 tunado com um processador provavelmente vindo de um G4 que queimou ou pifou de vez. Instalei o MacBench, um software que mede a velocidade de um sistema Mac. O G3 tunado tem o dobro da velocidade original dele, bem bacana, para uma máquina de 180 pila. E o mais curioso, o HD desse Mac estava batizado como Scanner.

Com o G3 rodando, instalei um scanner Sharp bem antiguinho e bem pesado. Consegui o driver desse scanner no site alemão da marca, que ainda tinha uma seção de downloads para algumas relíquias! O scanner deu um certo trabalho, ligar e desligar várias vezes, devia estar parado há muitos anos. Finalmente, consegui uma imagem única e depois ele se foi de vez.

Se você tem alguma coisa fotográfica ou informática que não quer mais, eu me disponho a descobrir algo para fazer com ela.