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Processos Fotográficos • perdas e ganhos

Recentemente durante uma entrevista do Foco Crítico (programa que apresento com Fausto Chermont) surgiu o assunto das perdas dos processos fotográficos. Falávamos com Ralph Gibson e ele contava da impressão de seu primeiro livro: http://www.ralphgibson.com/1970-somnambulist.html

A história que ele contou era de quanto ele teve que aprender e investigar sobre os processos de litografia naquela época e procurar pessoas que o atendessem para que ao invés de perder no processo de impressão e acabasse ganhando algo novo e inesperado. Nasceu ali um longo relacionamento dele com os livros.

No início do ano de 2015 queria preparar duas imagens da série Ser Cor e Ser Rio para uma feira. Mandei os dois arquivos para o Lucio Libanori, da Gicleria, imprimir e montar. O Lucio alertou para possíveis problemas de gamut. O arquivo dessa série é produzido em um software antigo, sem CMS, mas que é o que permite criar esse tipo de imagem, assim toda espalhada pelo ambiente do RGB.

Fomos adiante e fizemos as cópias, o trabalho realmente perdeu alguma coisa, algo que provavelmente é imperceptível. No entanto, nenhum método de impressão atual poderia resolver o problema.

O Lucio fez um vídeo de tela enquanto ele comparava os gamuts da imagem e da impressora dele, antecipando as perdas em todas as direções.

Confesso que me bateu um orgulho de ter conseguido criar um arquivo tão complicado e uma tristeza ao encontrar as limitações do processo.

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Consistência e Intenção no Lab PB

No início de março escrevi aqui sobre algumas fotos que ampliei, uma pequena série que entitulei Outono de 1998. Desde o começo do ano tenho me debruçado sobre meu arquivo, tentando dar conta de ampliar várias histórias que ficaram esquecidas. Aos poucos tenho conseguido aumentar minhas horas de laboratório e seguir rumo ao passado.

Essa semana, em uma conversa com a Maitê sobre isso, constatei que o tempo do aprendizado do laboratório é bem diferente do tempo de aprender a fotografar. Pequenos ensaios fotografados se juntam em caixas aguardando a capacidade do fotógrafo de traduzi-los em cópias.

O fator agravante é que se tratam de grupos de imagens, que ao serem ampliadas, exigirão uma proximidade visual que as façam parecer um grupo. Isso é um desafio enorme, porque ali mesmo na banheira de lavagem, aquela simples inspeção das cópias lado a lado revela a criação ou não de um grupo de imagens.

Vários livros nos ensinam técnicas mais avançadas de laboratório: Ansel Adams: A Cópia (tá ai um cara cuja paciência e dedicação ao fotografar era bem próxima da que ele tinha dentro do laboratório); Michael Langford: Manual de Laboratório (editado pela Melhoramentos em 1981, um clássico dos sebos brasileiros); Eddie Ephraums: Creative Elements (um livro sobre fotografia de paisagem com uma parte enorme dedicada ao processamento de filmes p&b 35mm para qualidade); Larry Bartlett: B&W Photographic Printing Workshop (o autor tem outros livros sobre o assunto e foi o responsável por um projeto de livro do fabricante Ilford também). Mas esses livros tratam as decisões inerentes às cópias individuais.

As escolhas que fazemos no laboratório: filtro de contraste, tempo de revelação, revelador X ou Y, queimar aqui ou ali, passam a ser escolhas que respondem ao grupo de imagens e não mais à aquela cópia única, essas escolhas precisam unificar o grupo, criar uma visualidade que possa ser reconhecida. Se o fotógrafo abre um grupo de fotos sobre uma mesa, aponta para elas e diz: Isso é um ensaio blá blá blá, o trabalho de laboratório precisa corroborar isso. Isso pode afetar até a edição do trabalho, caso uma imagem não seja “traduzida” para o papel adequadamente. Um cópia, por exemplo, pode funcionar bem quando clara, mas precisar ficar mais escura para se encaixar num grupo de imagens num determinado ponto da edição, e por ai vai.

Enfim, é com isso que ando discutindo comigo mesmo dentro do quarto escuro esses dias. Não é à toa que há um enorme atrativo na edição digital de imagens, onde a previsibilidade dos resultados é instantânea e se pode olhar grupos de imagens e realizar qualquer mudança para que o grupo funcione melhor.

O Instante Contínuo

Aproveitei minha viagem para terminar de ler O Instante Contínuo de Geoff Dyer. Na contra-capa uma explicação do que é o livro: “…o jornalista inglês examina como certos objetos e assuntos reapareceram em imagens ao longo do tempo e embalado por eles discorre sobre a vida e a obra de grandes fotografos…”

Chapéus, cercas brancas, bancos quebrados, ruínas, capôs de carros, camas, mendigos, homens de sobretudo preto, portas. Me dei conta que fotografei quase todos esses temas/assuntos. As associações de Geoff me parecem muito pertinentes. Para quem não é fotógrafo ele parece entender muito bem a influência que diferentes modos de fotografar e que diferentes equipamentos fotográficos podem ter sobre uma imagem.

O que ficou do livro, o que mais me cativou na leitura, foi poder entender um pouco mais a motivação de certos fotógrafos, seus percursos. E além disso poder apreciar como Geoff faz a leituras das imagens, como as descreve em palavras.